A Copa do Mundo começa em 12 dias, e o país vai parar. Antes do apito inicial, vale a pergunta: você torce pelo Brasil só nos dias de jogo?
A Copa do Mundo 2026 começa em 11 de junho, com estreia do Brasil em 13 de junho contra o Marrocos. Por 39 dias, milhões de brasileiros vão se unir em torcida. Mas torcer pelo Brasil não cabe em 90 minutos. Cabe em valorizar a maior biodiversidade do planeta, na cultura que faz da música e da mesa rituais coletivos, na gastronomia que entra agora em sua revolução de qualidade, no produto brasileiro que disputa espaço com o melhor do mundo. A Luci é, em escala doméstica, uma forma de torcer pelo Brasil todos os dias.
Em 12 dias, o Brasil vai parar. No dia 11 de junho, começa a Copa do Mundo 2026, primeira da história disputada por 48 seleções, sediada por três países (Estados Unidos, México e Canadá). No dia 13, dois dias depois da abertura, a seleção brasileira faz sua estreia contra o Marrocos, em Nova Jersey, sob o comando de Carlo Ancelotti. E pelos 39 dias seguintes, escritórios vão fechar mais cedo, almoços vão ser interrompidos, gritos vão ecoar das janelas, e o país inteiro vai vestir verde e amarelo.
Isso vai acontecer. Sempre acontece. E é uma das coisas mais bonitas que o Brasil tem, essa capacidade rara de virar nação inteira em volta de um jogo. Mas no meio dessa onda toda, vale uma pergunta sincera. Antes do apito inicial. Em que mais você torce pelo Brasil?
Torcer pelo Brasil é maior que 90 minutos
Existe uma torcida espontânea que aparece a cada quatro anos, com o calendário da FIFA. É genuína, é emocionante, é parte do que somos. Mas é também, em larga medida, automática. O Brasil joga, a gente torce. Faz parte do roteiro coletivo desde antes da gente nascer.
Existe outra torcida, mais discreta, que não aparece em pacote de gols nem em comercial de cerveja. É a torcida que escolhe, no supermercado, o produto feito aqui. A torcida que aprende a chamar fruta nativa pelo nome próprio. A torcida que valoriza quem produz com responsabilidade no Brasil, em vez de importar reflexamente o que já existe melhor por aqui. A torcida que reconhece que o país que merece o hexacampeonato é também o país que merece ter a sua biodiversidade preservada, a sua cultura difundida e o seu produto e povo valorizado.
Essa segunda torcida não tem data marcada. Não tem apito inicial. Acontece todo dia, em pequenas decisões que parecem irrelevantes, e que somadas decidem o tipo de país que estamos construindo.
A natureza que poucos reconhecem ter
Em qualquer ranking sério, o Brasil é o país de maior biodiversidade do mundo. Abriga sozinho cerca de 20% de todas as espécies do planeta. Tem seis biomas distintos (Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Pantanal), cada um com fauna e flora únicas. Possui frutas nativas que a maior parte dos brasileiros nunca provou e a maior parte do mundo nunca viu.
Cambuci, jabuticaba, uvaia, cagaita, pequi, jenipapo, umbu, mangaba, açaí, cupuaçu, buriti, bacuri, pacová. Cada uma dessas frutas tem perfil aromático único, propriedade nutricional específica, e história ligada a comunidades tradicionais que sustentam o bioma. Cada uma delas, valorizada como ingrediente, gera renda local, preserva habitat, mantém viva uma cultura que sabe da terra muito mais do que qualquer livro ensina.
Torcer pelo Brasil é, em boa medida, torcer para que esses ingredientes apareçam mais. No supermercado, no restaurante, no copo, na receita da avó, no cardápio do filho. Cada fruta nativa consumida é um pequeno ato político de preservação.
A cultura que ninguém replicou
Falamos há algumas semanas, no GOLES DE LUCIDEZ, sobre como o brasileiro vive a música como nenhum outro povo. Decora coreografia coletiva semanas antes do show. Canta letras inteiras em idiomas que não domina. Transforma fila em festa, plateia em participante, palco em altar. Quando Shakira pisou em Copacabana, no início de maio, ela não estava se apresentando para um público. Estava sendo recebida por uma cultura inteira que entende música como modo de existir.
Essa capacidade não se aprende. Se herda. E vem de uma mistura cultural única no mundo, que combinou tradição indígena, herança africana, raiz ibérica e influência migratória contemporânea para produzir algo que só existe aqui. Nossa música, nossa dança, nossa gastronomia, nosso modo de receber as pessoas em casa, nosso jeito de fazer da rua extensão da varanda, tudo isso é Brasil, e tudo isso é torcida ativa quando praticada com consciência.
Torcer pelo Brasil é cuidar de tudo isso. É ensinar samba para o sobrinho. É manter a mesa farta no almoço de domingo. É cantar alto no chuveiro. É continuar fazendo do brasileiro o brasileiro, mesmo quando o mundo lá fora parece nos pedir para sermos mais contidos, mais frios, mais "produtivos".
O Brasil gastronômico que está chegando ao topo do mundo
Quem viveu o Brasil dos anos 90 e olha o Brasil dos anos 2020 vê uma transformação gastronômica difícil de exagerar. O café brasileiro deixou de ser commodity e virou referência mundial em café especial. A cachaça artesanal entrou em concursos internacionais e ganhou. O chocolate bean to bar feito no Brasil disputa medalhas com a Bélgica e a Suíça. O queijo artesanal, especialmente o de Minas (alô alô Canastra), entrou em concurso mundial e venceu em categorias dominadas por franceses há séculos. E a cerveja artesanal brasileira, que era nicho pequeno em 2010, hoje tem produtores premiados em todos os continentes.
Nada disso aconteceu por acaso. Aconteceu porque uma geração inteira de produtores brasileiros decidiu que produto feito aqui não precisava copiar o que tinha lá fora. Que dava para olhar para o melhor do mundo, aprender com ele, e construir aqui algo equivalente ou superior, com identidade própria.
É essa torcida, silenciosa e cotidiana, que está construindo o Brasil que vamos deixar para os próximos. Não está no jornal, não está no horário nobre, mas está em cada produtor que escolhe o caminho difícil de fazer bem feito.
A Luci como expressão prática dessa torcida
A Luci nasceu dentro dessa onda, e é parte ativa dela. Quando decidimos colocar cambuci e jabuticaba na Catharina Sour, foi por isso. Quando trabalhamos com pacová e Lemon Haze na IPA Lucinada, em parceria com o etnobotânico Jorge Forager, foi por isso. Quando escolhemos lúpulo nacional e orgânico da Serra Catarinense para a Hop Lager, em vez do lúpulo importado padrão, foi por isso. Quando colocamos café arara orgânico da D.Origem, microtorrefação de Campinas, na nossa Pilsen com Café, foi por isso.
Cada decisão dessas é, em pequena escala, um voto pelo Brasil. Pelo bioma que produz cada fruta. Pelo produtor que cuida da terra. Pelo torrefador que respeita o grão. Pelo cervejeiro que faz cerveja sem álcool premiada. Pela cadeia inteira de gente que faz, com brasilidade, o que outros lugares do mundo levaram séculos para construir, e que a gente está construindo agora, em tempo recorde.
Beber uma Luci é, entre outras coisas, uma forma cotidiana de torcer pelo Brasil. Sem precisar de bandeira na sacada. Sem precisar de dia de jogo.
A pergunta que sobra
Em 12 dias começa a Copa, e o Brasil vai torcer pelo Brasil de forma intensa, em coro, em verde e amarelo. Em 39 dias depois, a Copa acaba. Independentemente de a gente ganhar ou perder, voltamos para o cotidiano. Para o supermercado, para a cozinha, para os jantares de quarta, para os encontros de domingo.
E é aí, na rotina silenciosa entre uma Copa e outra, que a torcida de verdade acontece. Você torce escolhendo o produto feito aqui. Torce conhecendo as frutas que crescem aqui. Torce valorizando a cultura que se faz aqui. Torce respeitando quem produz aqui.
Boa Copa para todos nós. E que a torcida pelo Brasil dure muito mais que 90 minutos.
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A Copa começa em 11 de junho de 2026. A torcida pelo Brasil começou faz tempo, e não termina junto com ela.