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Por Danniel Rodrigues

"Como assim você faz cerveja sem álcool e ainda bebe?"

 

O fundador da Luci responde com o relato dos 20 meses em que ficou sem consumir álcool e o que esse intervalo mudou nele

Resumo do artigo

É a pergunta que mais ouço desde que comecei a Luci. Fiquei 20 meses sem consumir álcool, de janeiro de 2024 a agosto de 2025. Voltei a beber em contexto profissional, ao entrar em um curso de sommelier de cerveja para construir o repertório técnico que a marca exige. Hoje consumo de forma muito mais consciente, apreciando estilos específicos de cerveja e de vinho. E sigo defendendo a Luci como ela sempre foi pensada, não como antagonista do álcool, mas como ampliação real de opção para quem quer beber bem em mais momentos.

É a pergunta que mais ouço. Em jantar, em evento, em entrevista, em conversa de bar. Quase sempre vem com o mesmo tom, mistura de curiosidade genuína e provocação leve. "Mas como assim, Danniel, você faz cerveja sem álcool e ainda consome álcool? Isso não é contraditório?"

A resposta curta é: não, não é. A resposta longa é o que eu quero contar aqui. Porque ela passa pelos 20 meses em que fiquei completamente sem álcool, pelo que descobri nesse intervalo, pelo motivo profissional que me fez voltar a beber, e pela forma como eu bebo hoje. E porque, no fundo, essa história é também a história da Luci.

A redução começou pela corrida

Antes de 2024, a corrida já tinha me ensinado a moderar.

A história da minha relação com o álcool não começa em 2024. Começa em 2022, quando entrei mais a sério na corrida de rua. Treinar para uma prova exige sono limpo, hidratação, regularidade. E álcool não combina com nada disso. Foi pela corrida que eu aprendi, pela primeira vez, a fazer pausas longas no consumo, principalmente nas semanas que antecediam uma prova alvo.

Mas quando eu não tinha objetivo esportivo definido, eu voltava a consumir eventualmente, como qualquer pessoa que gosta de uma boa cerveja ou vinho. A relação era oscilante, atrelada ao calendário esportivo, sem método além disso. Foi assim por quase dois anos.

Janeiro de 2024, o ponto de virada

A decisão de parar não veio de manifesto. Veio de noite mal medida.

Em janeiro de 2024, tive um episódio em que bebi mais do que precisava. Mais do que faria sentido para o que eu queria fazer da vida naquele momento. Não foi nada dramático, foi um excesso comum, desses que muita gente tem e esquece no dia seguinte. Mas eu, naquele dia, não esqueci.

Olhei para o que estava começando a construir com a Luci, olhei para o nível de foco que aquela jornada ia exigir de mim nos próximos anos, e tomei uma decisão prática: ia ficar um tempo sem álcool. Sem prazo definido, sem promessa pública, sem manifesto. Uma escolha silenciosa, só para mim e para as pessoas mais próximas, que eram impactadas por episódios de excesso. Janeiro de 2024 foi o início dessa aventura.

A dificuldade que ninguém te conta

A parte mais difícil de não beber não é a vontade de beber. É a expectativa dos outros de que você vai beber.

Quando comecei, achei que o desafio seria o álcool em si. Achei que ia sentir falta do sabor, da cerveja gelada no fim do dia, do vinho no jantar. Não foi isso. A dificuldade real apareceu em outro lugar, e foi muito mais incômoda do que eu esperava: a expectativa social.

Em quase todo encontro, alguém estranhava. "Por que você não está bebendo?". "Vai uma só, vai." "Tá doente?". "Tá de regime?". Como se não beber fosse desvio que precisasse de explicação. Como se a posição padrão fosse sempre beber, e quem não bebe tem que justificar.

Isso me ensinou muita coisa sobre o jeito brasileiro de socializar. O álcool, aqui, é tão normalizado nas situações sociais que a sua ausência cria estranhamento. E o estranhamento, para quem está tentando reduzir, vira pressão. Pequena, repetida, dia após dia, mês após mês. É uma forma de pressão que cansa.

A parte mais difícil de não beber não é a vontade de beber. É lidar com a vontade que as outras pessoas têm de que você beba.

Mas aconteceu algo importante. Conforme os dias viraram semanas, e as semanas viraram meses, eu fui ganhando confiança em mim. Cada situação social que eu atravessava sóbrio, sem precisar do gole para me sentir parte, foi me mostrando uma coisa que eu não sabia. Eu não precisava de álcool para que o momento fosse bom. Eu nunca tinha precisado. O álcool, em quase todas as situações da minha vida, tinha sido hábito, não escolha.

Essa percepção foi a maior coisa que tirei desse período. E ela não veio de teoria, veio da repetição. Você só descobre que não precisa quando você experimenta passar sem.

Agosto de 2025, a retomada com propósito

Eu não voltei a beber porque cedi. Voltei porque o trabalho exigiu.

Em agosto de 2025, depois de 20 meses sem consumir nenhuma gota, eu me inscrevi em um curso de sommelier de cerveja. A decisão veio de uma constatação prática: para construir a Luci com a profundidade técnica que ela exige, eu precisava de repertório sensorial muito mais amplo do que o que eu tinha.

O curso passa por todas as escolas cervejeiras do mundo, alemã, belga, inglesa, americana, e o objetivo é aprender a degustar e harmonizar cerveja em alto nível. Para fazer isso, você precisa identificar aromas, sabores, texturas, e inclusive defeitos. Você precisa reconhecer, na boca, o que separa uma Pilsen tecnicamente correta de uma excepcional. Precisa entender o que uma IPA bem feita entrega que uma malfeita não entrega. Precisa, em outras palavras, provar cerveja com álcool, porque é nessa categoria que está concentrada a tradição cervejeira mundial.

E vou te falar, degustar uma cerveja é muito diferente do que meramente tomar. Exige atenção que seus sentidos explorem tudo o que aquele rótulo, que foi pensado por alguém, tem a oferecer. 

Foi a primeira vez, em quase dois anos, que beber teve propósito explícito que ia além dos efeitos do álcool. Não foi recaída, não foi cansaço, não foi pressão social vencendo a barreira. Foi decisão profissional, tomada com a mesma consciência que me fez parar 20 meses antes. Voltei a beber porque a Luci pedia isso de mim.

E aqui está o ponto que muita gente esquece. A Luci não nasceu para ser inimiga da cerveja com álcool. Nasceu para coexistir com ela. Para oferecer alternativa decente nos muitos momentos em que o álcool é hábito automatizado, e respeitar a escolha técnica e consciente nos momentos em que beber é decisão deliberada.

Como eu bebo hoje

Eu bebo menos. Bebo melhor. E bebo escolhendo.

Hoje, consumo álcool de forma muito mais consciente do que antes dos 20 meses. Não bebo no automático. Não bebo porque o copo está cheio. Não bebo porque é sexta. Quando eu bebo, é porque eu escolhi aquele estilo específico de cerveja, aquele vinho específico, naquele momento específico, para apreciar. Não como combustível social, como degustação.

O vinho, especialmente, ainda ocupa um espaço de prazer técnico que nenhuma outra bebida substitui, porque ainda não existe categoria sem álcool minimamente equivalente (estamos quase lá). Vinho sem álcool, hoje, está mais ou menos onde a cerveja sem álcool estava em 2015. Em desenvolvimento. Com o tempo, melhora.

Para a cerveja, a história é diferente. A cerveja sem álcool de alta qualidade já existe, já está aqui, e em muitos casos cumpre função idêntica à da cerveja tradicional. É por isso que a Luci faz sentido como produto. Para os momentos em que o sabor importa mas o álcool atrapalha, e esses momentos são muito mais numerosos do que a gente imagina, existe escolha agora.

A pergunta que vale mais a pena

Quando alguém me pergunta "como você faz cerveja sem álcool e ainda bebe?", a resposta verdadeira não é defesa. É contraponto. Eu pergunto de volta, sem ironia: você sabe quando bebe por escolha, e quando bebe no automático?

Quase ninguém sabe. Eu não sabia, até passar 20 meses descobrindo a diferença. A maior parte do consumo de álcool que acontece no Brasil hoje não é apreciação, é piloto automático. É o copo cheio porque chegou no bar. É o brinde porque é fim de ano. É a taça porque tem comida na mesa. É a cerveja porque é domingo. É hábito repetido sem auditoria interna.

A Luci existe porque, quando você olha para essas situações com mais consciência, percebe que em boa parte delas você não queria mesmo o álcool. Você queria o gole, o ritual, a presença social, o sabor. E tudo isso existe sem álcool agora, com mesma qualidade sensorial e zero ônus no dia seguinte.

Beber bem, no fim das contas, é beber sabendo. Sabendo o que você quer, sabendo por que está bebendo, sabendo se vale a pena. Para muitos dos meus momentos, a resposta é Luci. Para alguns, ainda é cerveja com álcool ou vinho, apreciados em contexto específico. Lucidez não é abstinência. É consciência.

E a pergunta que importa não é se eu bebo. É se eu sei por que.

Para quem entendeu que a pergunta não é "se", é "por que".

Cervejas artesanais sem álcool da Luci. Para os muitos momentos em que o sabor importa, mas o álcool atrapalha. E para quem decidiu beber com consciência.

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Janeiro de 2024 a agosto de 2025. 20 meses. O que aprendi nesse intervalo virou parte do que a Luci é hoje.

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