Do banco de réus à lista de bebidas mais estudadas por seus compostos protetores: como o café mudou de status, e o que existe nele além do estimulante mais famoso do mundo
Por décadas, café foi tratado como suspeito. Associado a risco cardiovascular, cogitado como possível fator de câncer, alvo de recomendação médica recorrente de "beba menos, ou pare". Gerações inteiras de brasileiros ouviram isso em consultório.
Em 2016, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, revisou essa posição. O café, que estava classificado desde 1991 no grupo de substâncias "possivelmente cancerígenas", foi retirado dessa lista após revisão de mais de mil estudos, com a conclusão de que não havia evidência suficiente de associação com câncer. Foi um dos casos mais emblemáticos de reversão científica das últimas décadas.
Mas o mais interessante não é apenas que o café deixou de ser vilão. É que, à medida que a pesquisa avançou, ficou cada vez mais claro que os benefícios documentados vão muito além da cafeína, o composto que sempre levou todo o crédito (e toda a culpa).
O café é uma mistura química muito mais complexa do que parece
Quando alguém pensa em café, pensa em cafeína. Faz sentido, é o composto mais famoso e mais estudado da bebida. Mas o grão de café carrega centenas de compostos bioativos, e boa parte da pesquisa científica recente tem se dedicado justamente a entender o papel desses outros elementos.
Como resume o nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, o café é uma bebida nutricionalmente complexa, cujos compostos fenólicos, como os ácidos clorogênicos, têm ação antioxidante e anti-inflamatória que vai muito além do que a cafeína sozinha explica.
A presença desses compostos, e não só da cafeína, explica um achado particularmente revelador da pesquisa recente: café descafeinado também demonstra benefícios à saúde, em áreas como proteção do fígado. Isso só é possível porque os polifenóis e outros elementos do grão continuam presentes mesmo quando a cafeína é removida. É prova relativamente direta de que boa parte do que o café oferece não depende do estimulante mais famoso da bebida.
O que a evidência mostra hoje
Reunindo o que a pesquisa científica atual documenta sobre consumo moderado e regular de café, quatro áreas se destacam com respaldo consistente.
- Saúde do fígado. Estudos observacionais e clínicos vêm associando o consumo regular de café a menor risco de doenças hepáticas, incluindo cirrose e esteatose (acúmulo de gordura no fígado). Os polifenóis parecem atuar reduzindo inflamação crônica e melhorando marcadores de função hepática;
- Diabetes tipo 2. O ácido clorogênico está associado à melhora da sensibilidade à insulina e à regulação dos níveis de glicose no sangue, o que ajuda a explicar por que consumo regular de café tem sido associado, em diversos estudos populacionais, a menor risco de desenvolver diabetes tipo 2;
- Saúde cardiovascular. Uma revisão publicada no periódico científico The Ochsner Journal associa o consumo moderado de café à redução de mortalidade por todas as causas, além de menor incidência de hipertensão, alterações no colesterol, insuficiência cardíaca e fibrilação atrial. Os antioxidantes do grão parecem atuar reduzindo a oxidação do colesterol LDL e a inflamação vascular;
- Função cognitiva. Além do efeito estimulante já conhecido da cafeína, os polifenóis do café vêm sendo estudados por seu papel protetor contra processos inflamatórios e degenerativos no cérebro, com pesquisas associando consumo regular a menor risco de doenças como Alzheimer e Parkinson.
Vale registrar que boa parte dessa evidência vem de estudos observacionais, que mostram associação, mas nem sempre conseguem provar relação direta de causa e efeito. Ainda assim, a convergência de resultados em populações e metodologias diferentes é o que dá robustez a essas conclusões ao longo do tempo.
O estudo mais recente, café, músculo e hormônios
Uma pesquisa publicada recentemente no periódico científico European Journal of Nutrition, conduzida por cientistas da Universidade de Oulu, na Finlândia, trouxe um achado curioso. A equipe analisou dados de 2.264 pessoas de 46 anos, participantes de um estudo de longo prazo com finlandeses nascidos em 1966, e comparou consumo habitual de café com composição corporal, metabolismo e hormônios.
O resultado: pessoas que consumiam mais café apresentavam, em média, menos gordura corporal total e visceral, e mais massa muscular esquelética, mesmo quando comparadas a pessoas com índice de massa corporal semelhante. Os pesquisadores também observaram menor concentração de aminoácidos de cadeia ramificada, compostos associados a resistência à insulina quando elevados cronicamente. Nos homens, maior consumo de café esteve associado a mais testosterona total, mais SHBG (proteína que regula a circulação hormonal), e menos testosterona livre.
É um achado interessante, mas que pede cautela. O próprio estudo é observacional, o que significa que mostra associação, não prova causa e efeito. O pesquisador responsável, Luca Verroest, reconheceu que "ainda sabemos surpreendentemente pouco" sobre a relação entre café, metabolismo e hormônios, e outros especialistas que comentaram a pesquisa foram claros: o estudo não permite recomendar consumo maior de café como estratégia para perder gordura, ganhar músculo ou aumentar testosterona.
Quanto café é seguro, e para quem vale ter mais atenção
Nenhum desses benefícios funciona como licença para consumo ilimitado. Como referência geral usada por especialistas, adultos saudáveis costumam tolerar bem até 400mg de cafeína por dia, o que equivale a cerca de 2 a 4 xícaras de café de 240ml, dependendo do método de preparo e da concentração.
Consumo acima disso pode causar irritação estomacal, ansiedade, insônia e palpitações em pessoas mais sensíveis, e tende a desencadear enxaqueca em quem já é propenso a esse tipo de dor de cabeça. Gestantes, pessoas com risco de osteoporose e quem faz uso de determinados medicamentos (alguns antibióticos, antidepressivos e antipsicóticos) devem ter atenção redobrada e, idealmente, conversar com profissional de saúde sobre a quantidade adequada para o próprio caso.
Novas formas de beber café, e uma que ainda surpreende
Enquanto a ciência revisita o que o café tem por dentro, o jeito de consumir a bebida também vem mudando. O café gelado, que já foi visto como capricho de cafeteria americana, virou hábito consolidado no Brasil, especialmente nos meses mais quentes. Extração a frio, café coado gelado, versões com leite e gelo, tudo isso é hoje parte natural do repertório de quem gosta de café, sem abrir mão do calor do dia.
Essa mesma lógica de reinvenção chegou a um lugar que poucos esperavam: a cerveja sem álcool. Quando alguém pensa em café dentro de cerveja, a associação automática é com estilos escuros, densos, maltados, tipo stout ou porter. Faz sentido, café e malte torrado combinam bem, e essa dupla já é clássica no mundo cervejeiro.
A Pilsen com Café da Luci vai por outro caminho, e é exatamente aí que está a inovação. É uma cerveja sem álcool clara, de corpo leve, não uma cerveja escura pesada. A base maltada suave da pilsen se entrelaça com o café sustentável da Fazenda das Almas, em Cabo Verde, Minas Gerais, em parceria com a torrefação D.Origem, de Campinas, revelando notas de chocolate, amêndoas e um leve frutado, sem perder a leveza e o frescor que definem o estilo pilsen.
É cerveja sem álcool para tomar em qualquer momento do dia em que o café também faria sentido, no fim de tarde, no happy hour, num domingo quente. Uma cerveja sem álcool que prova que café e leveza não são conceitos opostos, e que dá para inovar dentro de uma categoria (cerveja sem álcool com café) que, até então, só existia em versão escura e densa.
O que fica dessa história toda
O café passou de suspeito a um dos alimentos mais estudados do mundo em termos de compostos bioativos. E o que a ciência recente está mostrando é que reduzir essa bebida à cafeína é simplificar demais uma química que envolve dezenas de compostos com efeitos próprios, alguns já bem documentados, outros ainda em investigação.
Aqui na Luci, a gente celebra essa complexidade de um jeito específico, com uma cerveja sem álcool que também desafia o que se espera de "cerveja com café". Beba com lucidez. Beba Luci.
- Possíveis benefícios do ácido clorogênico à saúde. UFRJ. researchgate.net
- Café preto não age apenas pela cafeína. Tua Saúde, 2026. tuasaude.com
- O papel dos antioxidantes no café. Jornal Cruzeiro, 2025. jornalcruzeiro.com.br
- Estudo café, composição corporal e hormônios. Universidade de Oulu / European Journal of Nutrition. exame.com
- Impact of Coffee Consumption on Cardiovascular Health. The Ochsner Journal. cartacapital.com.br
- Café na rotina: benefícios da bebida. ABRAN, via CartaCapital. cartacapital.com.br
- Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC/OMS), reclassificação do café, 2016.
Cerveja sem álcool com café, refrescante e diferente.
A Pilsen com Café é uma cerveja sem álcool clara e leve, com café sustentável da Fazenda das Almas, Cabo Verde/MG, em parceria com a D.Origem. Notas de chocolate, amêndoas e leve frutado, numa cerveja sem álcool feita para ser bebida gelada.
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Café é muito mais que cafeína. E a cerveja sem álcool com café também é mais do que se espera dela. Beba com lucidez.