· Por Danniel Rodrigues
Encerrando um ciclo com mais lucidez
O fim de um ano sempre carrega um certo silêncio simbólico, como se, por alguns instantes, o tempo diminuísse o ritmo da nossa rotina apenas para nos permitir escutar algo que normalmente passa despercebido: a necessidade de olhar para trás com honestidade e para frente com intenção.
Esse silêncio, porém, pode ser ofuscado pelo barulho excessivo das inúmeras confraternizações e festividades que o encerramento de um ano carregada, nos afastando da oportunidade de usar deste período para avaliar esse ciclo que está prestes a se encerrar.
Encerrar um ciclo não é apenas riscar uma data no calendário, é reconhecer tudo o que fomos ao longo dos últimos meses, com nossas conquistas, nossos excessos, nossas faltas, nossos acertos quase involuntários e os tropeços que nos ensinaram mais do que gostaríamos de admitir. É aceitar que cada capítulo vivido deixa marcas, e que algumas delas merecem ser celebradas, enquanto outras precisam finalmente ser deixadas onde pertencem: no passado.
Muitas vezes, quando pensamos no próximo ano, começamos pela superfície, listando coisas que queremos comprar, lugares que queremos visitar, metas que cabem bem numa conversa rápida ou numa postagem de rede social. Embora não haja nada de errado com isso, a reflexão aqui é ter outro tipo de objetivo, que costuma ser negligenciado justamente porque exige um mergulho maior, a revisão de quem estamos nos tornando, nossos valores, atitudes, hábitos etc.
“Nenhum vento é favorável para quem não sabe a que porto se dirigir.” (Sêneca)
Talvez o que o próximo ano peça não seja mais um objeto na prateleira, e sim um hábito que mude o jeito como nos relacionamos com o mundo. Talvez o que precise nascer não seja um novo projeto, mas uma versão mais gentil, mais disciplinada ou mais corajosa de nós.
Avaliar o caminho percorrido é um ato de lucidez e planejar o próximo passo, também. E quando essas duas ações se encontram, nasce uma clareza difícil de ignorar: nós não somos apenas fruto do que conquistamos, mas principalmente do que escolhemos cultivar e do que decidimos abandonar.
Antes de encerrar 2025, talvez a pergunta que realmente importa não seja o que queremos alcançar em 2026, mas quem queremos sustentar. Porque quando essa resposta se ilumina, as metas, os planos e os desejos deixam de ser ruído e se tornam consequência.
E é nesse espaço entre um fim e um começo que mora a lucidez, onde reconhecemos que cada novo ano é, antes de tudo, uma chance de reescrever a nós mesmos com mais presença, consciência e intenção.